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voltar Criatividade 04/05/2020 Que valor você dá às coisas que têm (2)?

Um dia, uma amiga reclamou para mim que seus pais a deixavam envergonhada porque diziam “eu te amo” a toda hora. Toda vez que ela ligava ficavam dizendo “eu te amo”, toda vez que a reencontravam (e ela morava junto com eles) em qualquer lugar, viviam dizendo “eu te amo”, na frente dos amigos, eles eram muito expansivos, sim, e quando você é um jovem ou um adolescente como ela, isso realmente pode ser algo que começa a incomodar, porque seus amigos podem achar que você é muito mimado, que você ainda é tratado como uma criança, que seus pais são muito – palavras dela – “grudentos”. “Por que eles não dizem só tchau?”, me perguntou ela, querendo dizer que de alguma forma, repetindo cada vez que eles a viam essa declaração, acabava por banalizar um sentimento tão bonito, que deveria ser externado só em ocasiões especiais.

Pra quem não é pai ou mãe, às vezes é difícil de entender esse exagero. Mas os pais dela – como muitas outras pessoas – diziam eu te amo toda vez que a encontravam por um motivo: na cabeça deles, aquela podia ser a última vez que eles a veriam na vida. Por mais trágico que isso possa parecer, a verdade é que somos seres finitos, frágeis, insignificantes, sim. E embora a gente conviva com amigos e familiares todos os dias como se tivéssemos a certeza de que no dia seguinte eles estarão conosco, a verdade é que essa não é uma certeza; é apenas uma probabilidade. Os pais da minha amiga diziam eu te amo toda vez que a viam ou falavam com ela por telefone por medo de que nunca mais a vissem e, se isso acontecesse, sentiriam uma grande angústia de não ter dito isso. Enquanto para minha amiga era uma repetição, para os pais dela era uma oportunidade de fazer aquele dia ter valido a pena de novo.

Semana passada, escrevi aqui sobre a adaptação hedônica, que é uma teoria que provou que estamos sempre desejando algo que não temos e que vinculamos nossa felicidade a isso. Ficamos felizes por comprar um celular novo, mas em pouco tempo esse pico de felicidade passa e nosso novo objeto de desejo é a última versão do celular. A mesma coisa com relacionamentos e com carreira. Quando finalmente estamos ao lado da pessoa que um dia amávamos, com o passar do tempo, passamos a desejar outra pessoa. Depois de conseguir o emprego que queremos, começamos a desejar um aumento ou um novo cargo. Nunca estamos satisfeitos com o que temos, e esse é o centro das angústias modernas.

Ok, até aqui nenhuma novidade. O grande problema é: como que eu consigo parar de desejar tantas coisas – que são o motivo da minha angústia – e passar a desejar aquilo que eu já tenho, se o que eu já tenho para mim é algo que não preciso conquistar mais? Há dois mil anos os estoicos, uma escola filosófica que se dedicava a descobrir como as pessoas poderiam alcançar a virtude, se debruçavam sobre essa questão. E eles encontraram uma resposta numa teoria chamada visualização negativa. Como eu passo a desejar novamente aquilo que eu já tenho como garantido na minhda vida? Imaginando como seria minha vida se eu perdesse aquilo que tenho. Isso é a visualização negativa, ao invés de pensar somente naquilo que você quer, você refletir diariamente sobre perder as coisas que tem. Como você abraçaria alguém da sua família se pensasse assim? O que aconteceria se você perdesse o carro que tem? Isso faria você dar muito mais valor a ele do que se usasse sua mente para desejar um carro mais novo.

Isso não quer dizer que a gente deve eliminar toda a ambição da nossa vida; mas é um caminho para aprender a dar valor às coisas que temos. O nosso autor Marcos Piangers tem um vídeo com milhões de visualizações que fala sobre a dificuldade que a gente tem de dizer “eu te amo”. Ele fez tanto sucesso que a gente transformou em um livro para dar de presente, o livro da foto. Esse livro ganhou o Brasil Design Awards em 2018.

Desculpe se o texto ficou muito maior hoje. O tema me fascina…

Que a gente dê todo o valor possível ao dia que ainda vamos viver hoje.

Boa semana!

 

PS: gostaria que eu escrevesse sobre algum outro tema que te interessa? É só sugerir. Se eu conhecer, escreverei. Se não conhecer, descubro quem pode escrever.

 

#SegundaDaCriatividade #BelasLetras #BomDia

 

@guertlergustavo não é filósofo, não é psicólogo, não é palestrante, não é coach, não é guru do marketing, além de não ser mais um monte de coisas. Ele é gente, apenas – e às vezes vai para a Belas Letras trabalhar também.