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voltar Criatividade 03/08/2020 Que tal valorizar o equilíbrio de opiniões?

Em 2018 participei de uma experiência inusitada na universidade de Yale, nos Estados Unidos. Era um curso sobre liderança e o professor aplicou uma simulação com a turma durante toda a manhã. O cenário era o seguinte: estávamos em um barco, atingido por um ciclone, conseguimos levá-lo até uma ilha, ele se danificou. Tínhamos um rádio, e fomos avisados de que uma nova tempestade estava vindo em nossa direção, e havia só uma caverna ali, do outro lado da ilha, onde conseguiríamos nos abrigar até que o socorro chegasse em alguns dias. Um dos nossos companheiros estava ferido e perdia sangue; como precisávamos carregá-lo não podíamos levar muita coisa conosco. O barco tinha vários suprimentos nele - água, comida, material de primeiros socorros, luvas, lonas, boias, enfim - só que a equipe precisava escolher só um item por pessoa para levar. Ah, se a gente quisesse, brincou o professor, a gente podia abandonar o amigo para morrer sozinho.

Era uma situação real que mariners - a tropa de elite do exército americano - já tinham enfrentado em uma missão. Nós tínhamos que escolher nosso grupo, iríamos para uma sala fechada com câmeras para registrar nosso comportamento. No final poderíamos rever para entender como tinha sido o processo de tomada de decisão. Uma das coisas mais interessantes do exercício era que havia três formas de analisar o desempenho, dava para saber o grau de sucesso meu individual, o do nosso grupo e ainda compará-lo com a nota que os mariners tiveram no acontecimento real em que o exercício havia se baseado.

Depois que a aula terminou, o professor passou o gabarito com os equipamentos, a ordem que deviam ser usados e os motivos. E todos conseguiram saber qual seu nível de assertividade tanto individual quanto em grupo. A primeira constatação: ninguém superou a nota do grupo verdadeiro de mariners (não é à toa que na vida real eles sobreviveram para ser resgatados). Uma das constatações desse professor aplicando a experiência em algumas empresas é que em quase 100% das vezes a nota de cada grupo é sempre maior do que qualquer nota individual, o que mostra que uma decisão discutida em equipe, ou em que você consulta outras pessoas, se essa equipe tiver qualificação para decidir, sempre será melhor do que uma decisão individual. 

Só que o fato curioso é que, na nossa turma, uma das colegas apresentou uma nota superior à do seu grupo, quase igual inclusive à dos mariners.

Voltamos a assistir o vídeo do grupo dela. Nele ficou muito claro que ela era a mais tímida e quieta, que em geral os homens do grupo tinham assumido de uma forma sutil a ideia de que esse era um exercício mais masculino, sequer cogitando a colega para a liderança - na verdade, obrigaram-na a assumir uma espécie de papel de secretária, anotando as respostas, revisando e preenchendo o gabarito. Em nenhum momento mostraram interesse em ouvir sua opinião ou em pedir a ela que tipo de contribuição ela poderia dar.

E depois de assistirmos o professor perguntou a ela por que ela achava que seu desempenho individual preenchendo as respostas tinha sido melhor do que o geral do grupo. Eis a resposta dela:

"Eu fiz esse mesmo exercício mês passado em outro curso, mas ninguém quis saber qual era minha opinião."

Alguns anos atrás, o Google contratou o pesquisador Charles Duhigg para descobrir o que criava um time perfeito. Sabe o que ele descobriu? Que a coisa mais importante em uma equipe era que, nas reuniões, todos tivessem a mesma proporção de tempo de fala. Quanto mais equilibrado entre todos esse tempo era, mais eficiente era a equipe. O professor Bernard Roth, no nosso livro O Hábito da Conquista, também conta como suas aulas passaram a ter mais engajamento a partir de uma ideia muito simples: fazer as pessoas formarem um círculo ao invés do formato tradicional, da mesma forma que explica como reuniões sem mesas podem ser mais produtivas.

Quantas vezes subestimamos pessoas mais quietas ou introspectivas em uma reunião de trabalho? Que tal você pedir a opinião daquela pessoa que quase não se manifesta, que fica em silêncio? Em geral, quando elas falam, sempre vale a pena ouvir. E, se você é essa pessoa, que tal não se deixar intimidar e não ter vergonha de falar, para que o grupo perceba que vale a pena ouvir você?

Uma semana de muita escuta ativa para você! 

 

#SegundaDaCriatividade #BelasLetras #BomDia



@guertlergustavo não é filósofo, não é psicólogo, não é palestrante, não é coach, não é guru do marketing, além de não ser mais um monte de coisas. Ele é gente, apenas – e às vezes vai para a Belas Letras trabalhar também.