fbpx

voltar Criatividade 31/08/2020 Que tal medir o tempo pela qualidade?

Nove músicos podiam ter feito parte dos Beatles e acabaram não fazendo, por motivos aleatórios, como trabalho, estudos (um deles convocado pelo Exército; outro por causa de uma bebedeira). Todos assistiram ao sucesso da banda anos depois, mas cada um reagiu de uma maneira diferente ao que aconteceu.

Jimmie Nicol entrou no lugar de Ringo no auge da beatlemania, depois de os Beatles terem conquistado os Estados Unidos. Aprovado em um teste-relâmpago nos estúdios de Abbey Road, Jimmie seguiu com John, Paul e George para shows na Dinamarca, Holanda, Hong Kong e Austrália, onde Ringo, recém recuperado de uma amigdalite, reassumiu seu posto. A experiência momentânea de fama mexeu com a cabeça de Jimmie. Depois disso, ele passou por bandas obscuras até largar tudo e viver misteriosamente por décadas, recluso, pobre e amargurado, no México.

Pete Best (último à direita na foto) também assumiu o posto de baterista, antes mesmo de existir a figura de Ringo. Ele ficou muito mais tempo: dois anos. E nunca soube exatamente por que foi tirado, pouco antes de a banda ganhar o mundo.

Best tinha tudo para terminar sua vida melancolicamente pensando na oportunidade perdida, como os outros. De fato, ele também passou por um período de depressão, chegou a processar os Beatles. Mas um dia tomou a decisão mais importante de sua vida, depois de uma tentativa de suicídio: não podia se arrepender por não ter sido um ex-beatle, mas agradecer por ter feito parte da história deles. Esse pensamento virou uma chave no modo de ele pensar sobre o passado. Best decidiu então aceitar os muitos convites que recebia para encontros de fãs, onde inclusive se apresentava. Não se escondia mais dos pedidos de entrevistas, em que falava abertamente e sem vergonha sobre o assunto. Em uma delas ele declarou: "Eu não tenho mais arrependimentos. Foi uma experiência maravilhosa tocar com a maior banda do showbiz. Eu não quero pensar que nada vai superar isso. Eu estou orgulhoso da minha contribuição." Best ainda tocou por alguns anos até virar um funcionário público muito bem humorado e realizado. Tem duas filhas e quatro netos que, segundo ele, talvez não existissem se ele tivesse continuado na loucura das turnês do FabFour.

A postura de Best despertou mais atenção sobre sua história e seu legado. Em 2007, Best entrou no Hall of Fame de Liverpool. Ganhou uma rua batizada com seu nome na cidade. Uma noite, seu telefone de casa tocou. Do outro lado da linha estava o próprio Paul McCartney. "Alguns erros precisam ser corrigidos", disse Paul, antes de avisar que acharam que seria justo ele receber uma parte dos direitos autorais das músicas. Eram alguns milhões de dólares caindo na sua conta.

É muito comum olhar para as decisões que a gente já tomou e se questionar se elas foram erradas ou certas, ou projetar nossa vida a partir do que poderia ter acontecido e não aconteceu. O remorso é um veneno que nos intoxica sem a gente perceber, que nos paralisa diante de novas escolhas. Raramente a gente se dá conta de que nem sempre há decisões certas ou erradas, mas apenas caminhos que nos trazem aprendizados e nos levam a outros caminhos. É uma falácia acreditar que a vida é curta e que você a desperdiçou fazendo uma escolha "errada". Calma. A vida é a mais longa experiência que qualquer ser humano vai experimentar. Se acha que a vida é curta, faça um exercício simples de mindfullness ficando apenas cinco minutos meditando em silêncio para sentir como eles vão demorar pra passar. Nossa idade é medida pelo tempo; mas a qualidade da nossa vida é medida pela intensidade com que vivemos e aprendemos com as nossas experiências.

Uma longa semana pra você!

#SegundaDaCriatividade #BelasLetras #BomDia

 

@guertlergustavo não é filósofo, não é psicólogo, não é palestrante, não é coach, não é guru do marketing, além de não ser mais um monte de coisas. Ele é gente, apenas – e às vezes vai para a Belas Letras trabalhar também.