fbpx

voltar Criatividade 27/07/2020 Por que você “não dá um jeito”?

Bob Geldof é um cantor e compositor irlandês que nos anos 80 se incomodou com as imagens da fome na Etiópia e colocou uma coisa na cabeça: ia dar um jeito de ajudar a mudar essa realidade. Ia dar um jeito de chamar a atenção das pessoas para o que estava acontecendo. Bob Geldof ia organizar um festival de música pra levantar dinheiro para combater a fome na África. Nascia aí um dos eventos mais importantes da história: o Live Aid, que levantou mais de 250 milhões de dólares, teve 40% de todas as pessoas do planeta assistindo (95% da audiência de toda a televisão, numa época em que não existia internet).

Bob fez isso sem ter um centavo no bolso, com a ajuda de outros amigos. Contra todas as probabilidades reuniu as bandas com os maiores cachês do mundo para se apresentarem de graça. Como ele conseguiu? Ele deu um jeito. A primeira grande estrela que ele convidou não aceitou se apresentar. Sabe o que Bob fez? Divulgou nos primeiros cartazes em destaque o artista como “nome 100% confirmado”. E quando a imprensa foi procurar esse artista, ele acabou dizendo que iria (quem poderia ser contra ajudar a erradicar a pobreza na África? Não ia pegar bem…). A BBC-TV não queria transmitir o show em Wembley. Bob ligou para os caras já sabendo disso, mas apenas para avisar: “Desculpa, talvez não consiga negociar com vocês, porque já está verbalmente fechado com a outra emissora. Estou ligando só pra pedir desculpas e pra dizer que não é nada pessoal.” E fez chegar na emissora concorrente a mesma informação, ao contrário. No fim, ele fechou com as duas.

Em 2005, Bob Gedolf organizou outro festival beneficente, o Live 8. O Pink Floyd tinha brigado feio (Roger Waters havia saído e processado os colegas), jurado que nunca mais tocaria junto, mas Bob botou na cabeça que iria fazer o grupo tocar pela última vez junto. O mais difícil de convencer era David Gilmour. O desfecho da história, pelas próprias palavras de Gilmour: "Eu disse que não, estava no meio do meu álbum solo. E Geldof me avisou: 'Vou visitar você agora, vou sair daqui e pegar o próximo trem'. Eu pensava 'Não, não, não'. Quando eu liguei para o celular dele, ele estava em East Croydon. Eu disse: 'Bob, não faz sentido, saia do trem.' E ele disse: 'Eu estou indo mesmo assim'. E assim Bob fez o que a imprensa divulgou como “um milagre”. A Rolling Stone chegou a publicar com o perfil de Bob e o título era: “O homem que não aceita sair com um não.”

A gente não precisa usar os métodos exóticos, até questionáveis (embora o que o movesse era uma causa muito nobre) de Bob para fazer aquilo que quer. Mas ele nos ensina uma lição importante sobre nossos sonhos. É muito difícil que as outras pessoas vivam na mesma sintonia que nós. Em geral, elas estão cuidando das suas próprias rotinas e problemas. Cada uma tem uma desculpa para dizer não. Cada uma vive dentro de tempos paralelos ao seu, com prioridades diferentes. A questão é o quão determinado você é para fazê-las sincronizar com o tempo de algo maior do que você e os outros. E o quão resiliente você consegue ser para não deixar as respostas negativas ou “desculpas perfeitas” te afastarem de cumprir uma missão. Não é à toa que um dos valores aqui na Belas Letras é “dá um jeito”: uma das coisas mais gratificantes para um profissional é ter a oportunidade de usar seu talento, sua inteligência e sua garra para fazer algo que os outros acham que “não vai dar”. É libertador provar que, sim, dá pra fazer. O que vai ficar na história para você contar é o que deu pra fazer, não o contrário.

Dá um jeito esta semana que ela vai terminar bem!

#SegundaDaCriatividade #BelasLetras #BomDia


@guertlergustavo não é filósofo, não é psicólogo, não é palestrante, não é coach, não é guru do marketing, além de não ser mais um monte de coisas. Ele é gente, apenas – e às vezes vai para a Belas Letras trabalhar também.