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voltar Criatividade 16/11/2020 O que você diria para seu jovem eu, se pudesse viajar no tempo?

Em 2007, a jornalista britânica Jane Graham escreveu para algumas das pessoas mais admiradas do mundo perguntando o seguinte: se você pudesse viajar no tempo e reencontrasse consigo mesmo quando era jovem, o que você diria para si? Para surpresa de Jane, mais de 500 personalidades aceitaram escrever uma carta para ela com a resposta. Jane então selecionou 100 das melhores cartas e publicou em um livro na Europa.

No Brasil, Carta Para Meu Jovem Eu será lançado dia 10 de dezembro pela Belas Letras (a gente avisa por aqui; fica a dica de presente de Natal também), mas com ingrediente especial: Jane nos autorizou a incluir, além dos depoimentos das personalidades mundiais traduzidos, as cartas de mais 10 brasileiros, que tivemos orgulho de convidar para esse projeto.

De hoje até o Ano Novo vamos fazer esta #SegundaDaCriatividade especial, trazendo sempre para você com exclusividade uma carta que estará nesse livro. Gostaria de começar com uma brasileira, claro: Elza Soares, falando sobre coragem. Boa semana!

Elza Soares

Cantora

7 de outubro de 2020

Nasci no Rio de Janeiro, na periferia, onde hoje existe a Vila Vintém. Meu pai se chamava Avelino, ele era um homem maravilhoso, que trabalhava como operário e gostava de tocar violão nas horas vagas. Minha mãe, Rosária, era lavadeira. Meus pais viviam para fazer com que não faltasse nada em casa, sobreviver apenas, e isso não era fácil para eles.

A gente era uma família muito pobre. Pobre mesmo, mas era uma família alegre e, de certa forma, feliz. A gente era feliz à beça. Eu passei minha infância brincando, fazendo cantorias em casa. Na verdade, por causa da nossa condição, sabe qual era meu maior sonho quando eu era criança? Um dia poder comer o que eu quisesse. Então eu cantava com meu pai e ficava pensando em crescer rápido, porque, se eu crescesse, eu poderia um dia cantar. E, se eu cantasse, teria dinheiro sabe para quê? Para comer. Para comer bem e o que eu quisesse. Na infância, eu só pensava em comer. Comer, um dia trabalhar, ganhar dinheiro e ser feliz.

Eu comecei trabalhando em uma fábrica de sabão, mas meu sonho sempre foi cantar. Com doze anos, precisei me casar, por vontade do meu pai. Com quinze anos, eu já tinha engravidado duas vezes e perdido dois filhos. Mas, graças a Deus, eu ainda seria mãe de cinco crianças. Sabe, eu não me lembro de quase nada da minha adolescência, para falar a verdade. Eu nem vi ela passar, talvez porque eu já tivesse muitas responsabilidades. Eu não sei se ela foi muito boa, também não sei se foi muito ruim. Eu passei por ela, é isso que importa; eu consegui passar e estou aqui hoje, com noventa anos.

Com vinte e um anos, eu fiquei viúva, sozinha, com filhos para criar, mas nunca desisti do meu sonho, que era cantar. Passei minha juventude com filho no colo, mas não posso reclamar. Ela foi boa, porque os filhos são a maior alegria da minha vida. E, de alguma forma, isso me fez crescer, me fez amadurecer, ficar adulta, mesmo que antes do tempo.

Em 1953, com vinte e três anos, tive a oportunidade de fazer um teste na Rádio Tupi, no programa de calouros de Ary Barroso. Imagina, uma mãe, carregando lata de água na cabeça, indo lá. Eu vi que tinha esse programa e precisava sustentar meu filho. Peguei uma camisa emprestada da minha mãe e uma sandália dela que, na época, a gente apelidou de “mamãe, estou na merda”. Ela tinha esse apelido porque você andava um pouquinho, logo arrebentava a tira e você olhava e falava: “Ai, que merda”! Então eu fui lá nesse programa de auditório, fiquei lá sentada e chamaram meu nome no microfone. Quando eu desci o primeiro degrau da arquibancada, a sandália não arrebentou, mas eu vi que todas as pessoas da plateia começaram a rir. A rir muito, de gargalhada, daquela minha pobreza, de como eu estava. O Ary Barroso falou no microfone: “Meu Deus, o que você veio fazer aqui?”. Eu disse: “Eu vim cantar”. “E quem disse que você canta?”, ele falou. Aí eu falei a música que ia cantar, ele ouviu e depois falou o seguinte: “Me diga uma coisa, de que planeta você veio?”. E aí as lágrimas vieram, eu não aguentei, foram lágrimas de tristeza mesmo. Eu respondi para ele: “Seu Ary, do mesmo planeta que o seu”. E o Ary Barroso perguntou: “De qual planeta?”. E eu respondi pra ele: “Planeta fome”.

Eu lembro que, quando eu falei isso, todo mundo que estava rindo se sentou, ficou tudo quieto. Aí eu cantei a música que eu tinha para cantar. Quando eu acabei, o Ary Barroso me abraçou e falou no microfone: “Senhoras e senhores, nesse momento, aqui, nasce uma estrela”.

E as mesmas pessoas que antes estavam de pé rindo de mim agora estavam de pé me aplaudindo. Eu fiquei em primeiro lugar nesse concurso e minha vida começou a mudar. Nove anos depois, quem diria, eu estaria na Copa do Mundo do Chile, representando o Brasil, como madrinha desse país. Eu conquistei aquilo que eu queria e muito mais.

Eu não tenho medo de mudar. Eu acompanho o tempo. Não sou quadrada, o negócio é você não parar de caminhar. Minha cabeça não para. Eu nunca vou parar de cantar, parar pra quê?

Se um dia eu tivesse a oportunidade de me encontrar com aquela Elza, eu diria o seguinte: Cuidado com as pedras que você vai encontrar pelo caminho. Terá que chutá-las, às vezes de uma maneira cruel. Farão teus dedos doerem, vai machucar. Caminhe sempre cuidando o chão, mas olhando para o horizonte. Vai caminhando com cuidado – devagar, às vezes, porque vai ter muita pedra no caminho –, sem deixar de lado teu grande sonho. Vai passar. Haverá sempre pedras no caminho e vai ter gente que vai achar melhor não se machucar, vai ter gente que vai achar que é melhor ficar paralisada, com medo das pedras. Não tenha medo de se machucar. Teus dedos vão sair machucados, sim, não vou te enganar, não vai ter outro jeito. Mas isso é viver. Isso é ser feliz.