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voltar Criatividade 28/12/2020 Inspiração, por Desmond Tutu

Arcebispo Desmond Tutu

Clérigo

5 de dezembro de 2011

 

Na adolescência, eu era parecido com a minha mãe – atarracado com um nariz grande. Ela não tinha muito estudo, mas era uma pessoa maravilhosa, misericordiosa e gentil. Sempre quis me parecer com ela nesse sentido. Era o único menino da família, com duas irmãs, uma mais velha e outra mais nova. Eu tinha uma saúde delicada. Na verdade, com dezesseis anos eu caí de cama com tuberculose e fiquei no hospital por vinte meses. Então, talvez eu tenha sido mimado em casa depois disso.

Nos divertíamos muito em família. Eu fazia alguns serviços em casa, como buscar água e fazer chá para os adultos. Eu gostava de ler. Meu pai era o diretor da nossa escola e nos encorajava a ler. Ele me deixava ler gibis – Superman, Batman & Robin – o que não era muito comum, já que geralmente a maioria dos professores não gostava que lêssemos revistas em quadrinhos. Isso alimentou meu apetite por leitura, e eu continuei a gostar de ler depois de adulto. Mas eu não era um rato de biblioteca, já que também gostava de brincar. Tínhamos tretas com os garotos brancos, porque nós morávamos numa área segregada e havia certa hostilidade entre as raças – a tendência era estarmos sempre em desvantagem.

Acho que eu gostaria bastante do Desmond adolescente se o encontrasse hoje – ele era bem divertido. Provavelmente eu era bastante inteligente na aula, e tinha alguns amigos especiais. Um se tornou editor de uma importante revista sul-africana, a Drum. Nós gostávamos de jogar futebol com bolinhas de tênis. Eu tinha muitos amigos e uma ou duas namoradinhas!

Deus tem um senso de humor peculiar. Desde cedo eu queria ser médico, e com dezesseis anos estava ainda mais determinado porque peguei tuberculose e queria encontrar uma cura para tal flagelo. Eu teria ido ao céu para entrar na escola de medicina, mas os negros na época não tinham muita escolha. Por exemplo, não se podia ser engenheiro, piloto, nem mesmo maquinista de trem – essas profissões eram reservadas para os brancos. É por isso que eu digo que Deus deve ter um bom senso de humor. Com muita frequência, quando estou sentado em meio a chefes de Estado em seus escritórios e residências imponentes, tenho que me beliscar e dizer: “Ei, este é o filho de uma área segregada – olha só onde ele está agora!”. Nunca, nem nos meus sonhos mais loucos eu imaginava que estaríamos onde estamos hoje.

Apesar da minha vontade de me tornar médico, não pude conseguir uma vaga na escola de medicina porque minha família não podia pagar o curso. Então fui estudar para ser professor. Eu gostava de ensinar até que o governo do apartheid introduziu a educação Bantu, um sistema deliberadamente inferior pensado para preparar as crianças negras para a servidão perpétua. Leah, minha esposa, e eu pedimos demissão. Ela foi estudar para se tornar enfermeira, mas eu não tinha muitas opções e posso até dizer que me tornei sacerdote por falta de opção. No entanto, por ter crescido numa família cristã, isso significou que talvez eu tenha absorvido certas coisas inconscientemente.

Fui influenciado por algumas pessoas incríveis e também pela minha mãe, a mais importante influência de todas. O primeiro sacerdote anglicano que conheci era um homem incrível, o padre Zachariah Sekgaphane. Posso até estar idealizando sua figura, mas realmente não lembro de tê-lo visto bravo alguma vez. Quando ele saía para fazer a missa nas fazendas, geralmente era tratado como um grande chefe. Ele também tinha sua própria cabana e serviam para ele um banquete suntuoso depois da celebração. Lembro que ele nunca se sentava para comer nessas ocasiões sem ter certeza de que nós, meros mortais, também tínhamos o que comer. Olhando para trás, acho que eu queria ser igual a ele por se importar com quem não era importante.

Outra influência significativa para mim foi o bispo Trevor Huddleston. Durante os vinte meses em que estive internado no hospital com tuberculose, ele realmente foi maravilhoso, me visitava toda semana ou mandava alguém me ver. O que isso fez pela minha autoestima foi incalculável – era impressionante que aquele padre branco tirasse um tempo regularmente para visitar um zé-ninguém negro. Eu tenho tentado, penso eu, imitá-lo no que diz respeito à sua preocupação com a justiça e em lutar pelos oprimidos – ele fez com que eu me sentisse importante e reconhecido.

Meu eu adolescente ficaria impressionado em ouvir falar sobre minha primeira visita à Grã-Bretanha em 1962. Que surpresa foi para Leah e para mim sermos tratados cordialmente como seres humanos. Ficamos pasmos quando um policial em Londres se dirigiu educadamente a nós como “senhora” e “senhor”. Para nós, era algo completamente inédito poder abordar um policial – branco – para pedir direções. Fazíamos isso até mesmo quando sabíamos para onde estávamos indo, apenas para saborear o momento de sermos chamados de senhor e senhora!

Quando se está certo, como estávamos ao nos opormos ao apartheid, é fácil achar que se tem superioridade moral. Eu dependo do amor e das orações de muitas pessoas e, quando o tamanho do meu ego cresce em demasia, Leah e meus filhos não perdem tempo em me colocar de volta no meu lugar. Leah tem um mural de recados que ficava no nosso quarto onde se lia: “Você tem o direito de estar errado!”. Mas, falando sério, acho que eu era mais saliente do que eu precisava, esquecendo que pegamos mais moscas com mel do que com vinagre. Talvez eu pudesse ter conquistado mais brancos se tivesse adotado um tom mais conciliatório.

A Igreja Anglicana é como qualquer outra denominação. É a igreja de Deus e no fim de tudo nada vai se sobrepor ao verdadeiro ensinamento. Vamos recuperar nossa verdadeira vocação como servidores do Reino, lembrando que nós existimos em essência para avançar no reino de Deus de honradez, amor, compaixão e gentileza para estarmos ao lado dos pobres, dos famintos e dos desprezados, exatamente onde nosso Senhor e Mestre estava e está.

Meu jovem eu tinha sonhos, mas o que aconteceu em nossas vidas e nas vidas de todos que foram oprimidos e agora estão livres superou tudo que sonhávamos. E, num sentido real, todos nós – negros e brancos, desprivilegiados e privilegiados, oprimidos e opressores, por vontade própria ou contra a vontade –, todos nós hoje estamos livres. A África do Sul, a lagarta repulsiva, tornou-se uma bela borboleta que pode sediar uma das mais bem-sucedidas Copas do Mundo da história. Nossa linda terra, que foi pária internacional, se metamorfoseou.

 

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana! 

 

 

 

 

 

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