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voltar Criatividade 08/02/2021 Envelhecer, por Chrissie Hynde

Chrissie Hynde
Vocalista, compositora e guitarrista
15 de setembro de 2014

Com dezesseis anos, havia um único interesse na minha vida: música. Não havia mais nada. Era 1967, o auge da música, exatamente quando tudo começou. Todas as bandas inglesas, Jimi Hendrix... Eu cresci nos subúrbios de Ohio e vivia ligada no rádio. A Guerra do Vietnã estava em curso, e a cultura da juventude estava decolando. Havia um choque gigante entre as gerações, e nós tínhamos um lema: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Para nós, tudo se resumia à música e às drogas. Eu era uma criança, então achava que sabia tudo.
Eu diria à minha versão mais jovem para ter respeito com meus pais. Meus pais eram quadrados – americanos trabalhadores dos subúrbios. Eles não entendiam o que estava se passando comigo e não estavam nada contentes com aquilo. Nós nunca conversávamos de verdade, tudo se transformava em discussão e brigas. Tudo começou a dar errado por causa desse grande choque de ideologias, mas hoje posso ver que meus pais eram apenas pessoas decentes tentando manter a família unida. Agora que sou avó, vejo como isso é difícil e sei também que não tive tanto sucesso quanto meus pais para amparar uma família.

Achava que tinha que estar sempre correndo. Não é uma sensação nada confortável sentir-se uma forasteira na sua própria cidade natal – é muito mais fácil se sentir uma estranha numa terra estranha. Nunca tinha visto um passaporte na vida e não conhecia ninguém que quisesse ir morar no exterior, mas eu queria cair fora. Estava muito determinada. Então não viajei pelos Estados Unidos – fui direto para Londres, porque era onde as bandas estavam.

Eu aconselharia a Chrissie mais jovem a não cair na cilada das drogas. Primeiro, eu diria a ela para deixar de fumar antes de ter que pensar nisso durante quarenta anos para só então largar o cigarro. O cigarro é o maior criminoso da nossa sociedade. O mesmo vale para o álcool. Eu diria para a minha versão mais jovem ficar só na maconha – perdi muito tempo com drogas e álcool, e não se consegue nada de bom com isso. Sou uma pessoa muito reservada e nunca divulguei minhas paradas, mas o fato de que duas pessoas da minha banda morreram em menos de um ano provavelmente já diz muita coisa.

Às vezes é difícil ter paciência com os filhos, ainda mais quando se está tentando pagar as contas e aguentar firme, e seus relacionamentos estão ruindo e você se sente esgotada emocionalmente. É mais fácil quando se é avó e você está mais tranquila, mas eu nunca permiti que divulgassem uma fotografia minha com minhas filhas. A única vez que isso aconteceu foi no enterro de Joe Strummer (e elas já eram adultas na época) e eu disse: “Vamos fazer isso por Joe”, porque nós o adorávamos.

Eu já me diverti muito e hoje moro no lugar dos meus sonhos. Amo Londres e sempre amei. Levo uma vidinha bem comum aqui – ainda compro a revista Viz, circulo por aí com meu cartão do metrô e ando de ônibus. As pessoas simplesmente pensam que não tem como ser eu, então me deixam em paz. Se você ficar de boca calada e não conversar com a imprensa, é possível ter uma vida normal.

Acho que, para se manter positivo, é necessário disciplina; a depressão é uma inimiga e ela vai te derrubar. Você tem que lutar contra ela, e no meu caso isso significa não beber, não fumar e não usar drogas. Se você vive de acordo com seus princípios, tem que haver um princípio de não mergulhar na noite sombria da alma. Estou mais velha agora e penso muito mais sobre a mortalidade. Quando se tem vinte e poucos anos, o futuro parece meio indefinido à sua frente e parece interminável, embora não tenha sido assim com meu guitarrista, que morreu aos vinte e cinco anos. Mas a finitude da vida fica bem diante da sua cara quando se tem a minha idade. Para ser sincera, eu até que lido bem com isso e não me incomoda. Tenho feito o que eu queria fazer e estou pronta para o que vier.

 

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana!