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voltar Outras loucuras 31/03/2020 Entrevista exclusiva com o futurista Tiago Mattos

O Tiago Mattos é meio que um mestre Yoda para a Belas Letras. Quando alguma coisa muito importante acontece no mundo, a gente recorre a esse cara gente boa, sereno, concentrado, que sempre pensa muito antes de falar, que não tem todas as respostas mas ajuda a gente a fazer as perguntas certas que o momento exige. E parece que agora é um desses momentos em que muitas coisas importantes estão acontecendo (ou a gente está vivendo um filme de ficção científica e não sabia?).

Desafiamos os leitores da Belas Letras a fazer perguntas ao Tiago Mattos e selecionamos cinco delas, que ele atenciosamente nos respondeu enquanto treinava o baby Yoda Valentin no isolamento Jedi. Como diria mestre Yoda: Difícil de ver, sempre em movimento está o Futuro. Mas aqui tem alguns pequenos insights aos leitores da Belas Letras, que podem mostrar bons caminhos para seguir. Faça ou não faça: tentativa não há.

 

Belas Letras: Quais são os cenários de rupturas/mudanças que são possíveis de imaginar a partir do que estamos vivendo agora?

Tiago Mattos: Eu acredito que o término do confinamento, o término da quarentena vai expor ainda mais as empresas que operam na economia clássica a não trabalhar mais no formato de economia clássica, porque todo mundo que está tendo que trabalhar de home office, remoto, está também tendo que se adequar aos métodos digitais. Porque trabalho remoto não é simplesmente trabalhar da mesma forma só que em casa. Exige outras posturas, outras formas de liderar, com mais alinhamento, com mais autonomia, com outro tipo de software de gestão, com outras métricas. Então uma ruptura que para mim me parece muito clara é que as equipes vão demandar das organizações clássicas um pouco mais desse olhar digital no seu dia a dia. E as empresas que não fizerem isso vão, provavelmente, perder muito em engajamento e, talvez, ver os seus melhores profissionais e as suas melhores profissionais também migrando para organismos que entenderam essa mudança.

 

Belas Letras: Como aprender e absorver melhor lições da situação que estamos vivendo?

Tiago Mattos: Eu ando tentando quebrar o código de como a gente aprende a aprender. E a minha atual hipótese, e pode ser que ela mude amanhã, é de que aprender tem direta associação com incongruência. Quando a gente percebe que está pensando de um jeito e agindo de outro, a gente percebe essa incongruência e nos causa um certo mal-estar. E esse mal-estar pode ser lidado de duas formas: ou a gente negar ele, brigar com ele, a gente tentar reforçar o ponto de vista mais antigo; ou a gente aceitar ele, se resignar com ele e enfrentar essa dor e partir pra mudança.

Eu estou vendo muita gente tendo essa dificuldade, essa não aceitação com o fenômeno que está acontecendo, brigando com os fatos, brigando com a realidade e agindo de acordo com o mundo que não existe mais. A gente tem que agir de acordo com o mundo que está existindo agora e que talvez exista daqui para frente e não volte a ser como era antes. Portanto, eu sempre faço esse convite para as pessoas, tentar observar suas incongruências e quando a gente enxergar essa encruzilhada ir para o caminho que é mais difícil, que é o de rever as suas opiniões. Mudar de opinião não é uma fraqueza, é uma grandeza, eu digo isso muitas vezes. Talvez a gente use esse período para aprender a aprender, para se observar melhor, para refletir sobre o que a gente está fazendo para o mundo, se isso é relevante ou não e se a atividade que eu tinha antes da pandemia é algo que entrega uma missão maior ou é algo que serve mais a mim mesmo. Eu tenho a impressão de que as pessoas estão usando esse espaço de solitude para fazer essas perguntas e vai sair daí, talvez, uma geração de profissionais mais conscientes com relação a propósito e legado.

 

Belas Letras: O que o momento pode nos ensinar ou nos dizer sobre como se configurarão as relações de trabalho no futuro?

Tiago Mattos: Eu acho que a gente vai ter um aumento de consciência com relação à sustentabilidade. A sustentabilidade hoje é muito erradamente associada a materiais sustentáveis. Eu tenho uma embalagem que é feita de material reciclado, eu tenho uma roupa que é feita de fibra de bambu. Sustentabilidade é usar menos recursos do que a fonte geradora, no caso a natureza, produz. E nesse momento onde está todo mundo em quarentena, mais recluso, a gente está tendo que administrar nossos recursos de uma maneira mais austera. Acho que isso vai aumentar nosso entendimento sobre sustentabilidade.

 

Belas Letras: Se o mundo muda conforme mudamos, há alguma perspectiva sobre o poder da conexão daqui para frente, uma vez que o cenário aponta a conexão como a melhor ferramenta atual de estar juntos sem estarmos perto?

Tiago Mattos: Já existe um consciente coletivo, de colaboratividade, de horizontalidade, de trabalhar de maneira descentralizada/distribuída e eu acho que o coronavírus vai acelerar, vai catalisar isso no momento que a gente sair da quarentena. Porque as lideranças que não adotarem esse tipo de mindset, provavelmente, vão se ver perdendo os seus melhores profissionais, as suas melhores profissionais para outros organismos. No momento em que a gente tem um inimigo comum e todo mundo tem que colaborar - porque não é só sobre a minha saúde, é sobre a saúde da população como um todo - todos esses conceitos se reforçam e as empresas que não levarem isso para o seu dia a dia vão estar desconectadas do zeitgeist, do espírito do tempo de hoje.

 

Belas Letras: Melhorar a nossa capacidade de enfrentar doenças e enfermidades em escala local e global é um dos desafios da humanidade. Como o momento que estamos passando pode desequilibrar a prioridade que esse desafio tinha?

Tiago Mattos: Bem evidente que a medicina hoje é reativa e massificada. Quando, na verdade, a medicina e a saúde devem ser preventivas e personalizadas. Então, cada indivíduo tem uma saúde, um perfil, pontos fortes, pontos fracos e o que a medicina e a saúde como um todo fazem é tentar entender a soma dos indivíduos como um grande grupo e atacar esse grande grupo de maneira padronizada. Isso é um absurdo na época de Big Data, na época de testes genéticos baratos e na época onde a gente tem a internet das coisas capaz de medir uma série de indicadores que há 50 anos não se mediam. Então, eu imagino que em um futuro próximo a gente vá ter uma medicina bem mais personalizada, bem mais preventiva e com uma seriedade muito maior com relação aos testes de DNA, tanto para proteger os dados na genética dos indivíduos, que hoje são uma questão que está meio nebulosa, mas também para que isso vire um grande banco de dados a ser tratado pelos organismos de saúde para que a gente tenha melhores soluções para a população como um todo.