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voltar Música 17/11/2020 Enferrujando em paz: crônica de um metaleiro calvo

Em meados de 1991, já depois do Rock in Rio II – festival no qual o Megadeth veio divulgar o Rust in Peace, vale ressaltar –, esqueci a maldita janela aberta no final da tarde. Isso, na cidade interiorana de Minas Gerais em que eu morava, significava ser carcomido por mosquitos durante a noite e amanhecer deformado como um zumbi de alguma capa de disco do Cannibal Corpse. Sapequei na minha vitrolinha com um canal queimado a pérola mais recente que eu havia adquirido na época... não, não o Rust in Peace, o Arise, já não mais o rough mix que escutávamos em fitas cassetes pirateadas como pãozinho quente, e sim a versão oficial. Com a podrera (sim, na época, esse disco era uma podrera dos diabos!) na vitrola, fechei a janela e borrifei o famigerado SBP para aniquilar os miniassassinos noturnos. Depois do cleck-tlact-tum-grrr da agulha fugindo do vinil, escapuli do veneno que pairava no ar do quarto e fechei a porta.

É claro que não abaixei a tampa da vitrola e, quando voltei para reabrir janela e porta, sapequei a agulha no vinilzão e... o disco tinha virado um mar de morros como a serra que adornava o horizonte à janela. O maldito veneno tinha feito brotar um monte de caroços no disco e arregaçado o lado B – adeus, “Meaningless Movements”, música com meus riffs prediletos na época!

Já deve ter gente se perguntando: “Caceta! Mas este texto não é sobre o livro do Rust in Peace, do Megadeth? Por que esse cara não para de escrever sobre o Sepultura?”

 



Calma, pessoal, não tem jeito, o Sepultura é pano de fundo para todo e qualquer brasileiro que vivenciou a transição metálica dos anos 1980 para os 1990, e a ruína do meu Arise acelerou a minha busca por mais discos novos.

Eu estava desgostoso com o Megadeth na época, pois o So Far, So Good... So What! tinha sido uma decepção, ainda mais em comparação com os discos lançados no mesmo período pelos outros três integrantes do Big Four, em especial o grandioso ...And Justice for All, do eterno rival do Megadeth, o Metallica. A decepção tinha relegado o Megadeth ao escalão das bandas pelas quais eu não economizaria uma grana para comprar os discos. Se alguém comprasse, eu até gravaria uma fita, mas nem seria BASF chrome!

Então parti em busca de bolachas com os amigos – em tempos analógicos no interior de Minas, éramos poucos os consumidores de música extrema e dependíamos daquilo que os chegados, uma vez por mês, no dia do pagamento, corriam a BH para comprar na falecida Cogumelo da Av. Augusto de Lima.

E foi então que descobri o Rust in Peace na casa de um amigo. Levei a bolacha para casa e... pirei! Que porra era aquela? Fiquei abismado! Desde então, ele está entre os grandes álbuns de metal que volta e meia são tocados na íntegra aqui em casa.

Como a banda que tinha lançado o disco menos empolgante do Big Four – na minha modesta opinião – podia ter feito, menos de dois anos depois, aquela obra-prima? Bom, quem responde são os próprios responsáveis pela bolacha: músicos, produtores, empresários, amigos da banda, namoradas, esposas, traficantes e bota etecetera nesse pessoal! Descubra tudo neste revelador livro que disseca os bastidores sujos, as tretas e a criatividade por trás das mentes responsáveis por um dos maiores clássicos da história do metal.

 

Marcelo Hauck é tradutor/revisor editorial e audiovisual, professor e doutor em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas/Carleton University. Os anos de jovem adulto que agonizou labutando em um banco o transformaram num velho metaleiro calvo. É um virtuoso... só se for em air-guitar!