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voltar Criatividade 07/12/2020 Destino, por Paul McCartney

Sir Paul McCartney

Músico

13 de fevereiro de 2012

 

Com dezesseis anos, eu estava tentando ir bem na escola com certa dificuldade, aprender a tocar guitarra e conquistar uma garota, o que parecia impossível naquela época – me faltava autoconfiança de verdade. Esta é a razão pela qual muitos caras entram numa banda – garotas e dinheiro. Todas elas pareciam muita areia para o meu caminhãozinho, e eu não conseguia pensar em como chegar numa garota e falar: “Quer ir ao cinema comigo?”. É assustador. O que você faz? Coloca o braço ao redor dela? Fica lá sentado esperando que ela fale primeiro ou ela espera que você diga alguma coisa antes? Compra uma caixa de bombons de caramelo? Acho que consegui levar uma garota ao cinema duas vezes, mas, mesmo nessas ocasiões, não foi fácil ser charmoso como James Bond.

Acho que mais tarde me dei conta de que esse jeito com que eu me sentia em relação às garotas aos dezesseis anos de idade era uma coisa sobre a qual eu poderia escrever numa letra de música. E foi o que eu fiz. Na verdade, também busquei naquela época outras coisas sobre as quais poderia escrever, não só românticas. Para se ter uma ideia, havia algumas velhinhas perto de onde eu morava em Liverpool, e fiz amizade com uma delas. Costumava ir ao mercado para ela, e depois ficávamos conversando um pouco sobre sua vida. Era fascinante falar com alguém de uma geração completamente diferente da minha e, em vez de pensar “É só uma senhora idosa”, dar-me conta de que eles foram jovens um dia e tiveram experiências incríveis com as quais era possível me identificar. Fazer as compras para aquela senhora se tornou uma experiência muito educativa e muito agradável para mim. Penso que me conduziu até “Eleanor Rigby”, uma canção sobre os solitários.

Não sou muito bom com datas – os especialistas em Beatles certamente são muito melhores nisso do que eu, mas acho que eu já tinha conhecido John e George com dezesseis anos. George pegava o mesmo ônibus que eu. Eu já estava compondo músicas – compus a primeira com quatorze anos. Então, quando conheci John, eu disse: “Tenho duas músicas e alguns pedacinhos de outras”. E ele disse: “Também tenho”. Foi uma boa maneira de nos aproximarmos. Pensamos: “Bem, se já fizemos uma música cada um sozinhos, talvez pudéssemos compor uma juntos”. E foi o que fizemos. As primeiras músicas eram muito simples, mas melhoramos pouco a pouco ao longo dos anos seguintes e, sem nos darmos conta do que estávamos fazendo, nos tornamos uma dupla de compositores. E também ficamos muito famosos.

Meu pai teve grande influência nas minhas composições. Em casa, ele tocava piano e eu sempre o ouvia tocar. Ele ensinou a mim e ao meu irmão como harmonizar as vozes juntos, e foi isso que criou meu amor pelas harmonias. Quando nós formamos os Beatles, adorávamos cantar em harmonia. É um belo jeito de se criar um vínculo e é por isso que as pessoas adoram grupos de coro. Lembro que, se tocasse alguma música animada no rádio, meu pai enfiava a cabeça pela porta e marcava o ritmo com o punho cerrado. Esse era só um de seus pequenos hábitos, mas se tornou uma lembrança muito especial para mim, simplesmente ver a alegria do meu pai com o ritmo da música. Ele me dizia para escutar o som muito grave que saía do alto-falante, explicando: “Isto se chama baixo”. Que divertido saber que mais tarde eu seria baixista.

Aos dezesseis anos, não fazia muito tempo que eu havia perdido minha mãe. Creio que, como em qualquer tragédia, com sorte sua mente encontra uma forma de lidar com a dor de modo a permitir que você siga em frente. Sendo um garoto de quatorze anos em Liverpool, eu podia tanto sucumbir à dor como seguir em frente apesar dela. A música me ajudou muito com isso, me trouxe bons sentimentos para substituir os sentimentos ruins. E, é claro, John também perdeu a mãe dele quando era jovem. Isso ajudou a criarmos um laço, ter isso em comum.

Acho que eu era um garoto bastante focado. Queria ir bem na escola e achava que estava me esforçando, mas nem todos os professores concordavam com isso e, no fim das contas, não tive muito sucesso. Eu era um sonhador, sem dúvida, mas não acho que isso seja ruim. Lembro bem que minhas aulas de música simplesmente não existiam; tínhamos um professor de música, mas ele só colocava um disco de Beethoven para tocar e saía da sala. Éramos um bando de adolescentes de Liverpool e simplesmente tirávamos o disco e jogávamos cartas, e, quando o professor estava voltando, colocávamos o disco de volta, agitávamos as mãos no ar para dissipar a fumaça dos cigarros e voltávamos para nossas carteiras. Para minha sorte, descobri a música de um jeito diferente, e ela se tornou minha paixão.

Se eu voltasse no tempo para contar ao meu eu de dezesseis anos como minha vida seria, ele não iria acreditar. Já pensei nisso outras vezes. Sempre que toco “Back in the USSR” ao vivo, geralmente falo para o público: “Se vocês me contassem quando eu era garoto que um dia eu iria conhecer o presidente da Rússia e ele assistiria a um dos meus shows – bem, impossível, não é?”. Tantas coisas com relação aos Beatles, ao Wings e à minha banda atual são fenomenais – voltar no tempo seria como o filme De Volta Para o Futuro. Eu ia ter que dizer ao meu jovem eu: “Vim do futuro e tudo o que estou dizendo é real. Aguente firme e não se desespere, você não vai acreditar no que vai acontecer na sequência”.

Também diria ao meu eu adolescente: “Não fique tão tenso com tudo, o mundo não é tão ruim quanto você pensa que é”. Minha estrutura familiar era boa, então não posso falar por todos, é claro, mas no caso do meu eu de dezesseis anos, eu só pensava: “Nunca vou conseguir uma namorada e nunca vou conseguir um emprego”. Ficava ansioso sobre essas coisas, sabendo que não havia uma boa resposta para a pergunta “O que você vai fazer na vida?”.

Os nascimentos dos meus filhos foram tempos de euforia. Tive muita sorte, porque venho de uma família enorme de Liverpool, então quase sempre me pediam para cuidar do filho pequeno de uma prima ou de uma tia. John era filho único e não havia bebês por perto, então, quando nasceu seu primeiro filho, ele teve que descobrir o que fazer com a criança – John não tinha qualquer experiência com isso. Ele era como aqueles pais que acham que os bebês são feitos de vidro e tinha medo de derrubá-lo ou de quebrá-lo. Mas a paternidade foi uma coisa bastante natural para mim, uma grande bênção.

O adolescente Paul McCartney adoraria a ideia da fama – era o sonho dele. Mas é curioso, a vida oferece premonições sutis que não encaramos como presságios até que o sonho se torna realidade, e então pensamos: “Será que aquilo era um sinal?”. Lembro que, quando John e eu nos reunimos pela primeira vez, sonhei que eu estava escavando o jardim com minhas próprias mãos e encontrava uma moeda dourada. Continuei cavando e encontrei mais uma, depois mais outra. No dia seguinte, contei a John o que eu tinha sonhado, e ele me disse: “Que engraçado, tive exatamente o mesmo sonho”. Acho que se pode dizer que o sonho se tornou realidade. Lembro que anos mais tarde disse a ele: “Lembra aquele sonho que tivemos?”. Então a mensagem do sonho era: “Continuem cavando, rapazes”.

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”. Os envios começam no dia 15 de dezembro.

Boa semana!

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