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voltar Criatividade 14/12/2020 Criatividade, por Tiago Mattos

Tiago Mattos

Futurista

23 de fevereiro de 2020

 

Aos dezesseis anos, minha vida era dividida em, basicamente, quatro missões concomitantes. Ao mesmo tempo que queria descobrir o caminho mais curto para entrar na faculdade sem, necessariamente, estudar, tentava achar uma solução para dar fim à má fase que o Inter vivia nos anos 90. Ambos os desafios me perturbavam muito e diariamente.

Assim como me afligia a iminente possibilidade de ser expulso da minha banda. Todos eram ótimos músicos – eu, apenas um letrista razoável. A mais importante de todas as missões era, também, a mais dolorosa: encontrar uma forma para que o meu amor platônico à época (uma menina chamada Melissa) me visse com outros olhos.

Nessa época, ouvi do meu pai uma das coisas mais importantes – e que mais moldariam minha personalidade a partir de então. Eu, um jovem vestibulando, estava na dúvida se me inscrevia para Administração, Jornalismo ou Publicidade.

– Pai, qual carreira devo seguir?

– Tanto faz. A atividade que você terá no futuro ainda nem existe.

Essa declaração, além de extremamente reconfortante para um inseguro adolescente, foi uma profecia que se autorrealizou. Sim, ele estava certo. A profissão que exerço hoje, dependendo do ponto de vista, não existia à época. Trabalho com Futurismo (uma área que investiga cenários futuros e que ganhou outro caráter a partir das revoluções tecnológicas das últimas duas décadas).

Mas, sim: foi a sua própria fala que, em algum nível, provocou esse resultado.

Com a sua declaração, meu pai me fez entender que o futuro era um lugar de carreiras menos lineares e rígidas. Me fez perceber que a troca de profissão seria cada vez mais natural. E que a gig economy (termo que, obviamente, não existia na época) era só questão de tempo.

A colocação foi, ao mesmo tempo, causa e consequência. Médico e monstro. Foi o futuro – e foi o formão que lapidou a jornada que me levou a esse futuro.

Antes de trabalhar com Futurismo, tive outras três encarnações profissionais (prefiro este termo a “carreiras” – afinal, “encarnação” vem da alma). Me formei em Comunicação e, por mais de dez anos, dediquei extremo suor a essa atividade. Um período que me ensinou os fundamentos do que exerço hoje.

Em 2007, me tornei educador. Ajudei a cofundar uma escola de atividades criativas que se espalhou para o Brasil e criou um canal direto com minha ancestralidade (minha mãe foi professora e sempre achei essa a mais munificente das profissões. Foi uma forma singela de homenageá-la).

Este universo me abriu para uma nova encarnação – a de empreendedor. Tive a sorte e o privilégio de estar no time de cofundação de diversas frentes de negócios (todas associadas ao que se costuma chamar de “nova economia”). Laboratórios de big data, plataformas peer-to-peer, aceleradoras de negócios, escolas on-line, coworkings, apps para aprendizagem interativa. E, só então, cheguei aonde estou hoje.

O Futurismo foi, apenas, uma forma de organizar as descobertas que tive ao longo de todos esses ciclos. Um porto onde desembarquei pelo balanço do mar – não um destino pré-traçado. Em meio a essas jornadas, tive dois casamentos e um filho – que é a coisa mais importante da minha vida. Fiz muitos amigos – e, verdade seja dita: alguns desafetos. Emagreci e engordei tantas vezes que perdi a conta (hoje estou perto da minha forma ideal). Aprendi muito – porque errei muito. Mas também aprendi muito porque soube ter disciplina e tirar lições dos momentos de bonança.

Percebo que, se tivesse essa oportunidade, se pudesse voltar no tempo, daria cinco conselhos para diminuir as inseguranças, para acalmar as dores e para acelerar a evolução de consciência deste Tiago que descrevi no início da carta.

Não tenho, entretanto, pretensão alguma de que estas colocações sirvam a outrem. Imagino aqui um diálogo muito íntimo, cheio de verdade e emoção, e que cabe a nós dois apenas.

 

– Querido Tiago,

Você não me conhece. Ou melhor: ainda não me conhece. Daqui a uns vinte e cinco anos, vamos nos encontrar em frente ao espelho.

Somos muito diferentes, apesar de muito parecidos.

Pelo zelo que tenho para com você, divido aqui cinco mensagens que, acredito, lhe farão muito bem:

1. Saiba que é difícil ter uma postura incomum. Você será julgado o tempo todo pelo senso comum. Que, como o próprio nome diz, é comum.

Não há maior prisão do que viver a vida dos outros, do que perseguir o Olimpo dos outros. Não ceda à pressão social. Respeite suas idiossincrasias e sua essência. Aposte na sua intuição. Ela o levará a lugares e experiências que você nunca imaginaria. Sempre que estiver frente a um dilema, apenas ouça seu coração. Ele lhe levará ao caminho certo.

2. Quem não pensa sobre o futuro cria o presente com as ferramentas do passado.

Daqui a alguns anos, você terá contato com as ideias de Zimbardo e Frey. Você entenderá que as pessoas veem passado/presente/futuro de formas muito distintas. Entenderá, também, que elas não respeitam essas diferenças e costumam impor a sua filosofia particular de tempo aos demais (como se este fosse o único ideal de felicidade). Isso é uma grande cilada. Falando especificamente de Frey, você irá parafraseá-lo muitas vezes. “O jeito que você imagina o futuro muda as suas ações no tempo presente. Portanto, não é apenas o presente que constrói o futuro. O futuro também constrói o presente”. Você encontrará a sua verdade nesse lugar. Não cometa o erro de fugir desse

espaço tão saudável para a sua personalidade. Mas nunca – nunca – seja autoritário de achar que todos os demais devam ser assim.

3. Quando você empreende, imediatamente perde o chão. Mas também perde o teto.

Uma das melhores decisões que você tomará ao longo da vida será empreender. Não pelos frutos financeiros, mas pela liberdade de se expressar ao mundo, pela capacidade de gerar impacto dentro das suas próprias métricas de sucesso – e por ser uma grande viagem de autoconhecimento.

4. As coisas que você fez não dizem quem você é. Dizem que você foi. É apenas questão de conjugação verbal.

Você vai errar muitas vezes. E errar feio. Sei que vai se autopunir de maneira maciça pelos seus equívocos. Cuidado. Obviamente, mudar seu nível de consciência é algo muito bem-vindo.

Entretanto, o preço a ser pago pela evolução não pode ser uma cobrança destrutiva. É claro que, aos quarenta anos, você vai ter outro entendimento de mundo. Outro entendimento de preconceitos estruturais (como machismo, misoginia, racismo e tantos outros). A cada nova descoberta, você vai sentir muita vergonha de quem era. Aceite que você é responsável pelas suas ações, mas também lembre-se dos ambientes onde você esteve. Da masculinidade tóxica que o cercou por tantos anos e que forjou muito da sua personalidade. Ou dos privilégios que você sempre teve, que nunca foram encarados como privilégios, e que o fizeram achar que meritocracia era apenas uma consequência natural do esforço. Cuidado com os outros. Cuidado consigo mesmo. Isso tudo é sua vida, suas vicissitudes.

5. Cuide bem do Valentin.

Ele vai te amar desde o umbigo e vai precisar muito do seu amor também.

Um beijo.

Tiago.

P.S.: Não se preocupe. Você entrará para uma boa universidade e estudará em algumas das melhores escolas do planeta. O Inter ainda será campeão do mundo. E você não será expulso da banda. Sobre Melissa, não vou estragar a surpresa. Mas acho que você vai gostar da história que o futuro reserva a vocês dois.

 

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana!

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