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voltar Criatividade 12/10/2020 Como você junta os recortes da sua vida?

Recomendo ler este texto ouvindo Bohemian Rhapsody, do Queen. Tentei escrevê-lo para que ele leve 5:55 de leitura, o mesmo tempo da música. Agora, sim, pode começar:

Bohemian Rhapsody é uma das maiores obras-primas da história da música e uma das mais inovadoras que um artista já criou. Embora seja classificada como rock, ninguém consegue ao certo defini-la: ela tem pelo menos seis partes diferentes: introdução, balada, solo de guitarra, ópera, hard rock e uma conclusão. Não é à toa que ela teve esse nome: rapsódia é uma espécie de composição formada a partir de recortes (entre os gregos, eram poemas) aparentemente sem ligação entre eles, uma justaposição de coisas aleatórias.

Era um conceito que combinava muito com o processo criativo de Freddie Mercury. Seus colegas de banda diziam que era comum ele se sentar ao piano e compor apenas um pequeno trecho, depois deixá-lo de lado. Tempo depois ele vinha com outro trecho, e um dia esses recortes todos iam se juntando. O produtor Roy Baker contou assim sobre o ponto de partida para Bohemian Rhapsody: "Freddie tocou apenas o início no piano, então parou e disse: ‘É aqui que a parte da ópera começa!' Em seguida fomos jantar".

Embora ninguém até hoje tenha conseguido interpretar tudo que seu compositor quis dizer nela (o próprio Freddie disse que as pessoas “deveriam ouvi-la, pensar sobre ela e refletir sobre o que ela quer dizer”), uma das leituras mais aceitáveis deixa um conceito importante para aplicar à nossa própria vida.

De alguma forma, Bohemian Rhapsody simboliza a história do próprio nascimento de Freddie como um grande artista. O homem que é morto no início da música é o próprio Freddie. Ou seja, ele precisou destruir a si mesmo, o homem que ele era no passado, para conseguir se assumir com suas imperfeições e crescer como um grande artista precisava. Quando ele, na música, conta para a mãe que puxou o gatilho e matou um homem, ele na verdade revela para a mãe que matou a si mesmo, que matou quem ele era, um garoto reprimido, cheio de traumas e frustrações, para libertar dentro dele o profissional que queria um dia ser. Ele teve que enfrentar o que tinha de ruim dentro dele, coisas que o deixavam angustiado, deprimido, triste, coisas que o impediam de seguir adiante, e decidir que ia destruir tudo isso para atingir seus objetivos, mesmo sabendo que ia doer nele como ele nunca tinha imaginado.

Bohemian Rhapsody é uma canção tão importante porque ela é sobre a nossa vida também. Nossa vida não é linear, ela é um recorte de experiências aparentemente aleatórias cujo sentido nós que precisamos dar a ela. E ela nunca vai acontecer de fato se não tivermos a coragem de às vezes “matarmos” nossos medos, traumas e histórias do passado para crescer, para nos tornarmos nossa própria obra-prima, aquilo que deixaremos como legado para o mundo e para as pessoas que amamos.

Bom feriado e uma semana com muita música pra você!

#SegundaDaCriatividade #BelasLetras #BomDia