fbpx

voltar Criatividade 23/11/2020 Autoconfiança, por Andrea Bocelli

Andrea Bocelli

Tenor e Compositor

10 de dezembro de 2018

 

Eu era um adolescente muito animado, até mesmo um tanto levado, sempre disposto a fazer uma brincadeira e dar risada. Como dizem no lugar de onde venho, eu sempre estava “disposto a aprontar alguma coisa”. Quando perdi a visão, por causa de um acidente enquanto praticava esportes, eu chorei, mas só por pouco tempo. Depois eu afastei qualquer forma de autocomiseração e decidi que precisava ser positivo e otimista com relação à vida, encontrando caminhos para explorá-la. Isso não afetou meu estudo de música de modo algum. As pessoas percebem isso como minha principal dificuldade, mas nunca foi e nunca é.

Não posso afirmar que tive aquela “angústia” de adolescente, mas eu era inquieto e estava sempre curioso sobre tudo, e também era teimoso. Talvez, às vezes, como parte da vida em família, tenha havido algum estranhamento, algumas discussões com meus pais ou com meu irmão, mas no geral éramos uma família unida e pacífica. O amor sempre prevaleceu, assim como o carinho mútuo suavizava qualquer tipo de atrito que pudesse existir.

Acho que eu era um adolescente ambicioso, sonhador. Sempre quis ganhar a vida com minha música. Era uma ambição permanente, desde a época em que estava no colégio e mais tarde durante a faculdade. Tive sucesso, apesar de acontecer muitos anos mais tarde, depois dos trinta e cinco anos, depois de muitas dificuldades e de ouvir “NÃO” muitas vezes – coisas que colocaram à prova minhas esperanças.

Devo muito aos meus pais. Meu pai Sandro e minha mãe Edi moldaram meu caráter, me deram uma educação que foi de extremo valor durante a vida inteira. Entre os muitos ensinamentos que recebi, devo mencionar a determinação de jamais desistir. Foi isso que meus pais demonstraram durante a gravidez da minha mãe, quando os médicos aconselharam abortar porque o bebê poderia nascer com doenças severas. Ela ignorou o conselho deles e seguiu em frente com o apoio do meu pai. Sem sua fé e coragem, eu não estaria aqui hoje para contar minha história.

Meu pai e eu temos personalidades semelhantes. Ambos temos temperamento forte e houve discussões ao longo do tempo. Mesmo que jamais tenha havido qualquer oposição por parte da minha família quanto à minha paixão pela música, meu pai não achava que eu pudesse ter sucesso e me sustentar confiando apenas na minha voz. Ele dizia: “Se é o que você gosta, cante, mas primeiro você tem que estudar!”. Ele também tentava controlar meu ímpeto juvenil (por vezes inconsequente) com o amor e a típica preocupação de um pai. Só pude entender isso mais tarde, quando eu mesmo me tornei pai.

A primeira vez que subi num palco foi com oito anos de idade, durante o show de talentos de final de ano na escola. Lembro que era um palco pequeno, de madeira, no hall do colégio onde passei os primeiros cinco anos de vida escolar. Estava nervoso e bastante emotivo e cantei “O Sole Mio”. Foi a primeira vez que recebi aplausos fora do círculo familiar. Ainda usava calças curtas com doze anos, quando meu tio insistiu que eu participasse de um concurso de verão organizado pelo Caffè Margherita em Viareggio. Ganhei e foi meu primeiro sucesso, e a primeira vez que senti o carinho do público. Muitos anos mais tarde, no palco do festival de música de Sanremo, senti o entusiasmo do público e entendi que, talvez, minha carreira finalmente estivesse decolando.

Se eu encontrasse o adolescente Andrea hoje, no geral acho que eu gostaria dele. Talvez a diferença entre nós fosse a impetuosidade, que aprendi a controlar ao longo dos anos. Também uma dose da inconsequência que, no passado, fez com que eu me arriscasse um pouco mais, principalmente nos esportes, mas que aprendi a conter quando desenvolvi o senso de responsabilidade. Eu teria inveja do adolescente Andrea em sua juventude, mas o jovem Andrea poderia invejar outras alegrias que vieram na meia-idade.

Quando jovem, eu era agnóstico. O jovem Andrea provavelmente não entenderia que hoje tenho uma fé e valores importantes, e que preciso demonstrar minha devoção todos os dias. Ao longo dos anos, passei a acreditar que a fé não pode ser conquistada sem esforço; assim como qualquer outra disciplina, requer compromisso, perseverança e sacrifício. Comprometer-se com a fé significa que precisamos concordar com ações que podem até mesmo parecer entediantes. Se quisermos aprimorar nossa fé, devemos nos submeter à oração. O jovem Andrea não teria compreendido isso naquele tempo.

De todas as apresentações que já fiz, provavelmente mostraria ao jovem Andrea o concerto no Central Park, e uma das óperas que interpretei pelo mundo – este sempre foi o meu sonho, que nutri com muito entusiasmo e um pouco de esperança. Ou talvez meu dueto com Luciano Pavarotti, ou com José Carreras, ou Plácido Domingo.

Uma coisa difícil de compreender na adolescência, mas que se tornou muito clara à medida que fiquei mais velho, é que a notoriedade em si não tem valor, e que a fama pode ser um obstáculo na busca da verdadeira humildade. É legítimo e maravilhoso poder sonhar, mas enquanto adulto jamais devemos perder o contato com a realidade; a menos que mantenhamos ambos os pés firmes no chão, corremos o risco de nos perdermos pelo caminho.

Antes eu disse que o jovem Andrea dizia ser agnóstico, mas era uma tática para evitar o questionamento de fato. Na fase adulta, algumas questões existenciais prementes surgiram. A leitura de um livro pequeno e maravilhoso de Tolstói chamado Uma Confissão, seguido por todas as outras obras-primas do autor, me conduziu no caminho em direção à fé. Acreditar que a vida é determinada pelo acaso não é apenas incompatível, mas também ilógico e nada sensato. A argumentação básica que nos permite seguir pelo caminho certo quando chegamos à primeira encruzilhada fundamental é: acreditar ou não acreditar. Na minha cabeça, trata-se de uma escolha e não há alternativa.

Se eu pudesse ter uma última conversa com alguém, seria com meu pai – para agradecer. Seria suficiente tê-lo perto de mim e sentir seu sorriso. Qualquer palavra seria desnecessária.

Eu tento me concentrar no aqui e agora, em cada dia. Nunca olho para trás e não quero saber qual é a minha programação para o dia de amanhã. Com relação às críticas, respeito totalmente a opinião das outras pessoas – é impossível agradar todo mundo! Artistas estão sujeitos a críticas positivas e negativas durante suas carreiras – assim é a vida. Já disse a você o que eu penso sobre a fama – não a considero algo de valor. Com relação a prioridades, meus filhos sempre estão em primeiro lugar. Isso ficou claro para mim desde o momento em que me tornei pai. Se eu pudesse voltar no tempo e reviver um único momento da minha vida, seria o momento em que segurei meu primogênito nos braços pela primeira vez.

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”, que será lançado dia 10 de dezembro pela Belas Letras.

Boa semana!

 

Criatividade
18/01/2021

Inspiração, por Marcelo Gleiser

Criatividade
11/01/2021

Ambição, por Billie Jean King

Criatividade
28/12/2020

Inspiração, por Desmond Tutu

Criatividade
21/12/2020

Amor, por Neil Gaiman

Criatividade
14/12/2020

Criatividade, por Tiago Mattos

Criatividade
07/12/2020

Destino, por Paul McCartney

Criatividade
30/11/2020

Geraldo Rufino, empreendedor

Criatividade
16/09/2019

Emprego de merda