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voltar Criatividade 21/12/2020 Amor, por Neil Gaiman

Neil Gaiman

Escritor

30 de janeiro de 2017

 

Com dezesseis anos era 1977 e eu era punk. Convenci três colegas de escola a formarmos uma banda chamada XXX – eu era o vocalista e o compositor. Eu estava... “desabrochando” não é a palavra certa, mas estava deixando de ser careta. Muitos anos mais tarde, fui participar da gravação de um programa de comédia na BBC Radio 4 e depois dei de cara com Steve Punt. Ele disse: “Ah, você é o Neil Gaiman!”. Eu esperava que ele dissesse que seus filhos tinham amado Coraline, mas em vez disso ele falou: “Já fui a um show de vocês”. Eu vi esse pequeno momento em seus olhos brilhantes. Queria voltar lá atrás e entregar esse momento ao adolescente Neil que fazia seu primeiro show no auditório da escola. E eu queria também poder contar ao jovem Neil – que no fim das contas desistiu de todas as fantasias sobre ser uma estrela do rock – que no futuro haveria essa época esquisita em que ele estaria na Tasmânia lendo poesia num palco diante do público com apoio financeiro de gente como David Byrne. Ou ainda que todos os ingressos para uma apresentação no Carnegie Hall foram vendidos e, depois de uma leitura, ele cantou a música country “Psycho” acompanhado de um quarteto de cordas. Então, no final de tudo, ele conseguiu realizar aquela fantasia de ser um rock star.


Todo esse lance com o punk tem sido uma força motriz – a ideia de que se faz alguma coisa fazendo. Você não precisa saber o que está fazendo porque se pode aprender com o trabalho. Isso significa que, quando comecei, coloquei uma citação de Muddy Waters na minha máquina de escrever: “Não deixe sua boca escrever nenhuma promissória que seu rabo não possa pagar”. Sabia que não teria problema em convencer as pessoas sobre o meu trabalho, mas para isso eu tinha que trabalhar. Aos dezesseis anos, achava que tudo acontecia por meio de mágica. Eu tinha trabalhado como redator freelancer por seis meses e tinha recebido adiantamentos para escrever dois livros. Não fazia ideia se realmente conseguiria escrever um livro – apenas respondia que sim quando me perguntavam.


Tem sido muito interessante conversar recentemente com amigos que tenho desde a época da adolescência. Faz pouco tempo que um amigo desenhou uma HQ que exibe todo esse caos monstruoso acontecendo ao redor da minha versão jovem, e eu calmamente caminhando pelos corredores lendo Um Estranho Numa Terra Estranha ou A Mão Esquerda da Escuridão, feliz em viver numa terra de livros. Eu definitivamente não sentia que me encaixava. Era desajeitado, me sentia desconfortável e nada contente no mundo real, mas incrivelmente feliz nos livros. Eu os usava como um guia de sobrevivência e também como fuga. Eu sonhava em me tornar escritor, mas parecia impossível, era como sonhar ser invisível ou superveloz.


Se eu realmente quisesse me exibir para o adolescente Neil, mostraria meus cinco Hugo Awards. Aqueles prêmios de ficção científica seriam mais importantes para ele do que a Carnegie Medal ou qualquer outra premiação. O fato de que colaborei com Harlan Ellison ou de que fui a um jantar com Lou Reed também pareceria bem legal, mas diante da ideia de que o adulto Neil tenha sido premiado com o Hugo Awards, o meu eu mais jovem pensaria: “Uau, sim, eu me dei bem”. E se eu pudesse contar ao Neil de doze anos que um dia ele escreveria um episódio de Doctor Who... Uau. Principalmente porque o episódio The Doctor’s Wife surgiu de uma ideia que tive assistindo à série quando eu tinha cerca de oito anos.


Em 2009, meu pai morreu no meio de uma reunião de negócios quando eu estava a caminho de Nova York para uma sessão de autógrafos. Enquanto eu estava no táxi, recebi uma ligação de uma das minhas irmãs dizendo que meu pai havia sofrido um infarto e que tinha morrido. Eu parei, caminhei por um momento, então segui para a sessão de autógrafos. Havia cerca de doze mil pessoas lá, e eu comecei a autografar por volta da uma hora da tarde e só terminei às nove da noite. Então fui para casa. E havia uma mensagem do meu pai na secretária eletrônica. Era apenas uma mensagem alegre dizendo: “Ontem foi o quinquagésimo aniversário do casamento da sua mãe e eu – dia lindo, e você sabe, também era um belo dia ensolarado cinquenta anos atrás. De qualquer forma, só liguei para dar um alô. E você não está”. E essa foi a primeira vez que chorei. Só ouvi a voz dele e desabei. Se eu soubesse que ia acontecer daquele jeito... Quando olho para trás, há tantas coisas sobre as quais penso: “Gostaria de ter perguntado isso, gostaria de ter anotado aquilo, gostaria de ter gravado aquela conversa”.


Há amigos que achei que estariam comigo para sempre e que simplesmente se foram, como Douglas Adams. Eu amava Douglas – ele era grande, complicado, irritante e maravilhoso em igual medida. Quando ele morreu, eu estava dando uma entrevista por telefone. De repente, apareceu um flash na tela do meu computador: “Morre Douglas Adams”. O jornalista me ligou um mês depois e disse que estava transcrevendo a entrevista, mas não havia nada que ele pudesse usar depois que eu tinha lido que Douglas estava morto, porque eu já não estava mais presente. Tantas pessoas que foram parte da minha vida e da minha paisagem – eu gostaria de poder voltar atrás e me encorajar a passar mais tempo com essas pessoas, aprender mais com elas. Sempre que alguém morre, eu sinto como se o universo estivesse me chutando no traseiro.


O tempo é um sopro, e eu gostaria de ter sabido antes o quanto ele passa rápido... Queria ter aproveitado mais. Stephen King – e, de novo, gostaria que o Neil de dezesseis anos pudesse estar lá, teria sido uma alegria imensa – apareceu numa sessão de autógrafos minha em Boston em 1992 e depois nós fomos até o hotel dele. Ele me deu o melhor conselho de todos. Ele disse: “Você sabe, você precisa aproveitar tudo isso. Isso é mágico. Você faz uma sessão de autógrafos e centenas de pessoas aparecem. Você é um dos mais amados roteiristas de quadrinhos do mundo. Aproveite”. Mas nunca aproveitei. Eu me preocupava que tudo aquilo fosse desaparecer. Eu me preocupava que iria estragar tudo. E foi só com quarenta e oito anos, quando conheci minha esposa Amanda, que eu pensei: “Nossa, você leva uma vida totalmente diferente da minha. Você a preenche fazendo coisas de que gosta e encontrando pessoas de que gosta e comendo as coisas de que gosta. Suponho que eu também possa tentar fazer isso”.


Ainda me preocupo. Suspeito que seja o modo como sou construído. O medo de que eu não seja capaz provavelmente é a força motriz que me mantém escrevendo. Essa parte de mim na verdade também está nos meus livros – eu realmente fico pensando: “O perigo está logo ali dobrando a esquina”. Meu livro O Oceano no Fim do Caminho não é realmente autobiográfico, mas aquele garoto sou eu. Eu voltaria para o meu eu de sete anos e me daria aquele tipo peculiar de amor que eu não tive. Aquele livro era eu falando para o menino: “Está tudo bem, tudo vai ficar bem”. Nunca senti que o passado morreu ou que o jovem Neil não estivesse mais por perto. Ele ainda está ali, se escondendo em alguma biblioteca, procurando a porta que vai levá-lo a algum lugar seguro onde tudo dá certo.


Se eu pudesse viver um dia novamente, escolheria a minha festa de aniversário de cinquenta anos em Nova Orleans. De manhã, minha esposa, que ainda era minha noiva na época, me levou para uma loja de cartolas e eu comprei uma cartola para mim. Então ela disse que ia sair para encontrar uma casa de chá e que me mandaria uma mensagem assim que achasse o lugar. Dez minutos depois, fui ao encontro dela, atravessando uma praça enorme que havia no caminho. E lá estava Amanda, vestida de noiva, posando como estátua humana. E então vários amigos nossos surgiram em meio à multidão, e meu amigo Jason celebrou uma cerimônia de casamento sem valor legal entre um escritor de cartola e uma estátua humana vestida de noiva. A coisa toda foi maravilhosa. Olhei em volta para todas aquelas pessoas que eu amava e pensei: “Ok, é isso que se ganha por estar vivo há cinquenta anos”.


Amanda é incrível. Houve um momento em que eu pensei: “Acho que quero casar contigo porque nunca mais vou me sentir entediado novamente”. Ela é parecida comigo o suficiente – bem, fazemos parte do mesmo planeta. Mas ela faz essas coisas incríveis, surpreendentes e peculiares que eu jamais pensaria em fazer. Essas coisas que te deixam pensando: “Sério? Você realmente vai fazer isso? Ok. Vou ficar aqui e segurar suas roupas, e se você for para a cadeia eu pago a fiança. Te amo”.

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana!

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