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voltar Criatividade 25/01/2021 Amizade, por Roger Daltrey

Roger Daltrey

Músico do The Who

5 de novembro de 2018

 

Terminei o colégio no meu aniversário de quinze anos. Mandaram-me para a agência de empregos para jovens, que me arrumou um trabalho como ajudante de eletricista numa construção, mas nunca vi um fio sequer – minha atividade se resumia a tirar o ar de dentro dos canos. Pensei: “Foda-se, isso é como trabalhar de encanador”. Com dezesseis anos, eu estava trabalhando numa indústria metalúrgica em South Acton. Chamar aquilo de indústria é um exagero: era só um barraco coberto com telhas de asbesto e vinte blocos de concreto que cercavam computadores primitivos do tamanho de tanques de guerra. Foram alguns dos dias mais felizes da minha vida. Alguns caras recém tinham chegado da Malásia e da Coreia, duas guerras de que geralmente nos esquecemos. A cantoria, as risadas e a camaradagem, tudo era muito divertido, mesmo que o trabalho fosse dureza.

Aqueles anos de adolescência foram cheios de angústia, energia, testosterona e paranoia. Eu sofria bullying na escola, então meu botão “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” estava sempre ligado – aprendi a absorver o primeiro impacto em caso de ameaça. Talvez eu fosse um marginal agressivo, mas não penso que eu tenha praticado bullying.

O futuro que eu imaginava para mim era me tornar um cantor de rock e nada mais – essa era a minha visão e o que me motivava. Eu tinha onze anos quando vi Elvis, mas foi Lonnie Donegan quem realmente me arrebatou. Uma razão pela qual acabei saindo da escola foi que eu não queria saber de mais nada a não ser de música. E todas as noites eu tocava com a banda – estávamos récem começando a ganhar cachê nos clubes.

Minha geração se livrou do alistamento militar obrigatório por um ano, ainda bem! Eu não sei que rumo minha vida teria seguido, mas acho que ficaria tudo bem. Não me importo em ter um pouco de disciplina – já tinha participado da Boys Brigade, naquele tempo nós todos recebíamos treinamento para a próxima guerra. Aprendi a tocar corneta e a marchar em formação, mas eles também nos ensinaram como a democracia funcionava. Eu me tornei o cantor da companhia; como era pequeno, o sargento me colocava sobre os ombros dele e eu começava a cantar.

Somos uma geração de operários da construção civil que cresceram com nada – tudo tinha sido destruído pela guerra. Quando não se tem nada, se você quiser alguma coisa, você a constrói. Fiz minha primeira guitarra elétrica, a cópia de uma Fender, e estávamos começando uma banda. John começou a tocar também – tínhamos personalidades diferentes, mas seguimos em frente e ele era um baixista genial. Pete Townshend entrou em seguida e, minha nossa, ele estava totalmente em outro nível. Ele tinha habilidade, graças à escrita e ao intelecto, para escrever letras de música de outro calibre, diferente de todos os outros. Com prazer desisti de tocar guitarra, era uma coisa completamente incompatível com um metalúrgico, porque minhas mãos estavam sempre cheias de cortes depois de descarregar dez toneladas de aço. Então essa era nossa turma. E, quando Moon entrou, foi a chave de ignição para dar a partida. “Vruuuumm” – e lá fomos nós, como a turbina de um jato. Mesmo para a época, nossa energia era diferente de qualquer outra banda.

Apesar de toda a raiva, da angústia e da paranoia, sempre houve um respeito profundo entre nós, e foi por isso que o The Who permaneceu unido. Pode haver tudo isso durante a turnê, mas, quando se chega em casa, há um carinho profundo um pelo outro – é uma família. Não se meta no meio disso, você não duraria dois segundos!

Eu faço o que sempre sonhei, mas aqui dentro não mudei nada de como eu era quando garoto. A fama é um troço bizarro. Todos nós queríamos ser ricos e famosos, e nos tornamos tudo isso, mas no fundo ainda somos os mesmos sujeitos de antes. Não quero ser a estrela num pedestal – sempre me senti desconfortável com isso. Hoje em dia eu me isolo na zona rural e fico um pouco recluso, mas é por escolha. Gosto de estar com meus netos e com a família.

Tornei-me pai aos vinte anos. Quando deixei minha família, foi com a intenção de que eu poderia ser melhor para todos – Jackie, meu filho Simon, eu, a banda, minha mãe e meu pai, minhas irmãs – se eu fosse em busca do meu sonho. Melhor do que se eu tivesse tentado fazer alguma coisa de que não pudesse dar conta, que seria estar casado com um filho num apartamento de um conjunto habitacional em Wandsworth. Eu olhava para a rua, para a van da banda com a flecha e The Detours (nome anterior da banda) impresso na lateral – ela me chamava para partir. Da forma como acabou acontecendo, deu tudo certo. Não fui um ser humano perfeito, mas espero que tenha aprendido com os erros que cometi.

O principal conselho que dou aos jovens é ficarem atentos ao que estão recebendo nas redes sociais. Porque a vida não é ficar olhando para baixo, para as telas, é olhar para cima. Estamos nos encaminhando para a catástrofe com o vício que está tomando conta da geração mais jovem. Sua vida vai desaparecer se você não tiver cuidado.

Meu jovem eu teria adorado “Baba O’Riley” – essa música se comunica com geração após geração. A ponte – “Don’t cry, Don’t raise your eye, It’s only teenage wasteland” / “Não chore, Não erga os olhos, É apenas devastação adolescente” –, se isso não diz respeito à atual geração, não sei o que diria. Mas eu me senti inspirado com os jovens que conheci por meio do programa Teenage Cancer Trust. Eles são fantásticos.

Houve dois momentos reveladores na minha vida: o primeiro foi com a música de Lonnie Donegan, e o segundo foi com meu médico, Adrian Whiteson, dando início ao Teenage Cancer Trust. Havia adolescentes diagnosticados com câncer que acordavam em hospitais infantis ao lado de crianças de dois anos. Eu me lembrei daquela fase da minha vida, quando me sentia muito isolado, caminhando às margens do rio todos os dias e cabulando aula. Pensei: “Puta merda, imagine se você tem câncer e precisa ficar ao lado de crianças chorando numa ala do hospital? Ou pior, na ala geriátrica!”. É uma coisa que estou determinado a mudar com o restante de vida que tenho, mas é uma luta difícil, árdua.

Os jovens músicos de hoje estão muito mais preparados do que jamais fomos. Às vezes vemos gente iluminada, como quando Ed Sheeran tocou pela primeira vez para o Teenage Cancer Trust. É um jovem fora do comum. Ele faz tudo aquilo sozinho? As pessoas acham que é fácil, mas é fodido! Ele é um diamante, esse garoto. Todos eles já tocaram pela fundação. Os Arctic Monkeys estarão aí por um longo tempo, e eu gostaria que os irmãos Gallagher voltassem a tocar juntos. Meu conselho a eles é que toda a parte verbal que te mantém na imprensa hoje é uma versão de luta livre – não é real, então supere.

Se eu pudesse viver qualquer dia novamente, gostaria de voltar lá atrás e oferecer a Heather uma cerimônia de casamento apropriada. Casamos num cartório no impulso do momento. Então fomos até o pub e ficamos rindo e nos divertindo com Zoot Money, Steve Ellis e mais alguns amigos. Não sei se ela queria mesmo uma cerimônia de casamento apropriada, é mais no sentido de que eu me sinto mal com isso. Em setembro, vai fazer cinquenta anos que nos conhecemos. Qual é o segredo? Pergunte a ela – eu não sei!

Adoraria voltar lá atrás e ter uma última conversa com Keith Moon. O que eu diria para ele? “Seu imbecil de merda!”. Não, acho que eu não falaria nada – eu apenas queria dar um abraço nele. Nós o adorávamos. Não conhecíamos centros de reabilitação naquela época; fizemos o melhor que podíamos com o pouco que sabíamos, mas foi duro. Sair por aí com Moon podia ser um dos melhores e mais divertidos dias da sua vida. Um dia ruim com Moon podia ser seu pior pesadelo. Mas um bom dia por aí com Moon podia ser um dos melhores e mais divertidos dias da sua vida.

 

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana!