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voltar Criatividade 11/01/2021 Ambição, por Billie Jean King

Billie Jean King

Tenista

5 de fevereiro de 2018

 

Eu sempre quis mudar o mundo. Tive uma epifania com doze anos de idade, quando percebi que todos que praticavam meu esporte usavam tênis brancos, roupas brancas e jogavam com bolinhas brancas – e todos os tenistas eram brancos. Eu me perguntei: “Onde estão todos os outros?”. Naquele dia, fiz uma promessa de que iria lutar por igualdade pelo resto da minha vida. E eu sabia que podia ter uma oportunidade para isso por causa do tênis. Não fazia ideia do que era ter uma plataforma, mas sabia que teria que ser a número um do mundo se eu realmente quisesse mudar as coisas.

Na verdade, no começo eu queria tocar piano, mas me dei conta rapidamente de que não era muito boa nisso. Mas Deus deu a mim e ao meu irmão caçula uma boa coordenação visual e motora, e nós éramos velozes. Com onze anos, na segunda vez que peguei uma raquete de tênis na mão, já queria ser a melhor do mundo. Então, com dezesseis anos, já fazia cinco que estava nessa missão e começava a jogar bem nos torneios de adultos. Wimbledon parecia realmente longe demais do sul da Califórnia, mas, depois que perdi em três sets para Anne Jones, Harold Guiver se ofereceu para me ajudar a chegar lá. Recusei a oferta. Eu não estava pronta. Um ano depois, com dezessete, senti que já merecia uma chance e voltei a falar com ele. Não havia tanto dinheiro no tênis naquela época. Quem jogava era porque adorava o esporte. Éramos amadoras que ganhavam quatorze dólares por dia. O tênis profissional começou em 1968, mas tivemos que lutar por premiações iguais e foi por isso que criamos a WTA.

Como meus pais tinham passado pela Grande Depressão e meu pai tinha lutado na Segunda Guerra Mundial, eles nos ensinaram a ter aversão ao risco. “Se você não tiver dinheiro, não gaste”. Quando eu tinha dez anos, minha mãe me fazia sentar ao lado dela e me mostrava o orçamento doméstico. Foi uma das melhores coisas que ela fez na vida, porque eu não tinha ideia de que cada vez que eu acendia a luz precisava de dinheiro, e que cada trajeto de carro significava dinheiro para o combustível. Meu pai era bombeiro, então não havia muito dinheiro, mas aprendi como administrar minhas finanças com meus pais e sou muito grata por isso.

Eu teria adorado marchar com Martin Luther King Jr, mas estava batendo bola naquela época. Quando ele fez o discurso Eu Tenho Um Sonho, em 1963, eu tinha dezenove anos, e aquilo foi incrível. JFK foi assassinado no dia do meu aniversário de vinte anos, depois King foi assassinado e em seguida Robert Kennedy. Todos eles foram assassinados nos anos 1960, e eu os adorava. Eu teria feito mais se tivesse a chance – ou se tivesse coragem. Tornei-me politizada porque percebia as coisas. Quando estávamos tentando mudar o tênis, entrei de cabeça nisso. Tentei ajudar a passar a Emenda IX, que foi uma lei importantíssima relacionada à igualdade nos Estados Unidos. No final dos anos 1960, estava tentando compreender as coisas e tive a oportunidade de ajudar, mas ainda estava jogando tênis. Com sorte, cada golpe numa bola de tênis ajudava a amplificar minha voz um pouco mais, mas eu me sentia culpada. Queria ir além daquilo. Eu queria mudar as coisas.

Hoje em dia não penso muito sobre tênis, mas meu jovem eu teria se orgulhado de vencer Wimbledon e de ser a número um do mundo em mais de uma ocasião. Na verdade, eu gostava mais de jogar em duplas do que simples, porque cresci jogando esportes de equipe. Meu irmão caçula jogava beisebol profissional no time do San Francisco Giants. Adorávamos a pressão e nos fortalecíamos com isso. Sempre digo que a pressão é um privilégio, e que os campeões se adaptam a ela. E eu me refiro aos campeões na vida, não apenas aos atletas.

Ser líder pode ser bem solitário. Havia real solidariedade entre nós, as nove atletas que criaram a WTA Tour, mas fomos ofuscadas por nossos colegas tenistas. Foi uma época difícil. Nada divertida. Todos os dias eu imaginava o que teria acontecido se eu tivesse perdido de Bobby Riggs. Ele me perseguiu por dois anos, e eu sempre recusava a proposta. Mas, assim que Margaret Court jogou contra ele e perdeu, eu sabia o que tinha que ser feito. Sabia que seria imenso. Sabia que seria enlouquecedor. Não importava onde se estivesse, esse jogo era o assunto do momento. E eu sabia o quanto era importante que eu ganhasse.

Nunca me senti confortável na minha própria pele até fazer cinquenta e um anos. Levei uma vida inteira. Então eu diria para a minha versão mais jovem: “Você vai ter que passar por situações difíceis com relação à sua sexualidade (ela teria dito ‘Hã? O que é isso?’), mas tudo vai acabar bem”. Minha mãe costumava dizer: “Para ser alguém na vida, seja verdadeira”, mas ser verdadeira comigo mesma era difícil. Minha mãe era homofóbica, então foi uma época curiosa, descobrir como isso poderia funcionar. Meu pai assimilou a ideia mais rápido. Com a minha mãe foi mais problemático e levou mais tempo. Eu estava tentando descobrir quem eu era e saía com pessoas diferentes, mas não sou o tipo de mulher de uma noite só. As coisas melhoraram quando entrei num relacionamento sério. Ilana e eu já estamos juntas há trinta anos, e quando começamos a namorar finalmente eu me senti comprometida.

Sou um pouco confusa – prefiro corpos masculinos. Quando estamos numa festa, meu olhar recai sobre corpos masculinos, mas para rostos femininos. Tem mais a ver com emoção e conexão. Nesse momento, sou lésbica. Sou queer. A garotada agora fala queer. Era a pior coisa que se podia dizer, mas estou sempre perguntando aos jovens e, se eles falam queer, isso é tudo o que eu preciso saber. É importante acompanhar os tempos. Os jovens estão marcando o ritmo. Quando eu ainda jogava tênis, eu não tinha tanto tempo quanto gostaria para ajudar a comunidade LGBTQ. Eu ainda não compreendia totalmente quem eu era, então cheguei muito atrasada à festa.

Minha mãe e meu pai já faleceram, mas eu converso com eles todos os dias. Não sei se eles estão me ouvindo, mas converso com eles. Eu digo “O que vocês acham disso?” e geralmente sei o que meus pais responderiam. Eles eram muito rígidos e sempre me diziam para ser honesta, ter integridade e fazer a coisa certa: “Você tem que viver consigo mesma em primeiro lugar e manter a cabeça em paz”. Meu Deus, meus pais eram de ouro.

Minha vida acabou sendo melhor do que eu jamais poderia ter imaginado. Se alguém se sentasse para conversar comigo e dissesse que eu seria a melhor do mundo durante anos, que fariam dois filmes sobre a minha vida – primeiro com Holly Hunter e agora com Emma Stone fazendo meu papel – e que escreveriam uma canção a meu respeito, na verdade mais de uma, você acha que eu teria acreditado nessa pessoa? Nem pensar.

Cada geração tem que lutar por igualdade. Nunca se consegue vencer. É chocante que Trump seja presidente e que estejamos retrocedendo. É assim que o pêndulo age e é nossa culpa. Mas os millennials e a garotada de hoje formam uma das gerações mais positivas da história com relação à inclusão, e eles podem fazer acontecer, então essa é a minha esperança. Eles vão acertar a mira. Eles vão fazer um progresso significativo. Queria ter essa idade de novo, porque eu estaria arrasando! Eles têm a chance de realmente tornar este mundo um lugar melhor. Melhor do que jamais sonhamos...

 

Este depoimento faz parte do livro “Carta para Meu Jovem Eu”.

Boa semana!

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