45 anos de Movement
Quarenta e cinco anos depois de seu lançamento, Movement (1981) segue como um capítulo fundamental — e muitas vezes subestimado — da história do New Order. Lançado pouco tempo após o fim do Joy Division, o álbum carrega o peso do luto, da transição e de uma banda que ainda buscava sua identidade.
O momento não poderia ser mais oportuno para revisitar esse disco: o livro All The Way: New Order, Joy Division e Projetos Paralelos, biografia que percorre toda a trajetória do New Order e seu universo, acaba de ganhar vida e chegar ao catálogo da Belas Letras.
Para celebrar a importância de Movement, separamos 3 curiosidades de bastidores da gravação do álbum que a biografia revela:
Conflitos intensos com Martin Hannett moldaram o som do disco
Se o álbum soa tenso, isso não é mera impressão. As gravações foram marcadas por divergências profundas entre a banda e o produtor Martin Hannett.
Segundo Peter Hook, o grupo queria mais peso e mais percussão. A ideia era abandonar a delicadeza etérea associada ao Joy Division e buscar algo “mais limpo e mais pesado”. Com a ajuda do engenheiro de som Chris Nagle, aumentaram o volume da bateria para deixá-la mais grave e encorpada — decisão que irritou Hannett, pouco interessado em dialogar com as novas ambições do grupo.
As discussões foram especialmente acaloradas em faixas como “Truth” e “Everything’s Gone Green”, nas quais a banda queria baterias eletrônicas e sintetizadores mais altos e presentes. O produtor, porém, mantinha outra visão estética — e o choque criativo foi inevitável.
A banda foi excluída da mixagem (e até trancada no estúdio)
Os bastidores ficaram ainda mais tensos quando Hannett, já bastante envolvido com cocaína na época, passou a agir de forma errática. Em um episódio extremo, chegou a trancar os integrantes no estúdio, condicionando a saída à composição de uma música “realmente decente”.
Como já havia feito nos discos do Joy Division, Hannett assumiu sozinho a mixagem de Movement, vetando a participação do New Order no processo. Ele sequer aceitou fazer um test pressing da versão mixada pela banda com Chris Nagle para ouvir como soaria no vinil.
Um período inicial cercado de conflitos, frustrações e a necessidade de se reinventar enquanto lidavam com o luto.
Bernard inseguro, Hook no vocal e até um salmo bíblico
Outro ponto curioso é a própria dinâmica vocal do disco. Grande parte das músicas foi cantada por Bernard Sumner, que ainda estava pouco à vontade no posto que antes pertencera a Ian Curtis. Durante anos, Sumner afirmou que só conseguiu ouvir Movement completo uma única vez após finalizado — e nunca mais voltou ao álbum.
Já Peter Hook assumiu os vocais principais em duas faixas: “Dreams Never End” e “Doubts Even Here”. Esta última conta ainda com backing vocals de Gillian Gilbert em seus versos finais — ainda que de maneira nada convencional.
Segundo relato de Stephen Morris, como ninguém sabia exatamente o que Gillian deveria cantar, surgiu a ideia de recitar um trecho do Salmo 77 da Bíblia. A escolha tinha uma justificativa prática e bem-humorada: o texto não tinha direitos autorais — e Deus não havia processado ninguém ultimamente.
Um disco corajoso de transição
Peter Hook definiu Movement como “a primeira coisa que fizemos do zero”. Gravado rapidamente, em meio ao choque da tragédia e à necessidade de seguir em frente, o álbum pode soar confuso em certos momentos — e talvez seja justamente isso que o torne tão fascinante.
Movement não é apenas o disco de estreia do New Order. É o retrato cru de uma banda aprendendo a sobreviver, a se reinventar e, eventualmente, a mudar os rumos da música alternativa e eletrônica nos anos seguintes.
Quatro décadas e meia depois, revisitá-lo à luz de All The Way é entender que, antes de “Blue Monday” e das pistas de dança, houve um período de incerteza, tensão e experimentação — e foi ali que tudo começou.



